De volta às raízes, cabelos cacheados e crespos são ato político e de resistência

ALÉM DA APARÊNCIA
Leilaine Rezende antes e depois da transi��o capilar

Antes e depois de Leilaine Rezende, que identifica consciência política e de empoderamento nas entrelinhas do tema

Ter o cabelo cacheado, crespo, volumoso, trançado e “voltar às raízes” nem sempre é uma tarefa fácil. Há quem reúna forças e promova encontros para falar sobre o tema, procure informações online e crie plataformas para dar orientação a quem deseja manter as madeixas naturais ou recuperá-las de processos químicos.

O tema virou defesa acadêmica e tem, cada vez mais, revelado adeptos e defensores de uma causa que  vai além da mera “questão de aparência” para se transformar em ato político e de resistência.

A reportagem do  conversou com estudiosos, digital influencers, trançadeiras e pessoas que passaram, em algum momento de suas trajetórias, pela conhecida “transição capilar”. Essa é a expressão que define o tratamento usado para devolver aos fios de cabelo quimicamente alisados o seu aspecto natural, na maior parte das vezes, crespos ou cacheados.

A publicitária e pesquisadora Leilaine Rezende, 25 anos, é natural de Rondonópolis, mas vive desde a infância na Baixada Cuiabana. Sua tese escrita na UFMT trata das semelhanças entre youtubers cacheadas e a força que estas influenciadoras têm através de seus canais de comunicação. Antes de pesquisar o assunto, Leilaine reconhecia uma consciência política e de empoderamento nas entrelinhas do tema. Quando entrou na faculdade, usava um corte bem baixinho. Abandonou a chapinha e deixou o cabelo crescer conforme a sua natureza.

Folkcomunicação é uma teoria criada por um brasileiro chamado Luiz Beltrão. Em sua monografia, a pesquisadora trata de agentes na folkcomunicação que fala de pessoas com privilégios sociais que levam informações adquiridas em viagens e leituras  e as compartilham com pessoas que não possuem acesso às mesmas coisas. “Fiz uma comparação com os chamados influenciadores digitais que usam de suas influências para levar informação, testar produtos, simplificar tendências para outras pessoas”, explica.

Arquivo pessoal

Tran�as e cachos - instagram ninho de cacho

Publicitária, Leilaine Rezende criou de forma simultânea à tese, fan page e instagram com o nome Ninho de Cacho

“Na época [da faculdade], o simples corte de cabelo me ajudou a filtrar amizades, amores e relações profissionais. Minha antiga profissão não permitia um cabelo volumoso em um evento ou no lobby de um hotel. Era sinal de desleixo. Como estudante de publicidade, via veteranas indo para as agências com aqueles lindos black powers e, por isso, eram reconhecidas como mulheres de atitude. Me motivei cada vez mais”, recorda.

Apesar de se manter firme na decisão, o corte lhe conduziu a algumas inseguranças, pois freqüentemente pessoas lhe perguntavam se ela estava doente ou redescobrindo a sexualidade. Em outros momentos, afirmavam que ela estava enlouquecendo ou que era mais bonita de cabelo longo. “O primeiro desafio foi minha auto-aceitação, me reconhecer no espelho com o cabelo que nasci e olhando pessoas que tinham o cabelo como o meu na internet. Depois, nos meus relacionamentos familiares, amorosos e amizades. Ninguém acreditava, alguns até me desencorajavam”, desabafa.

Mesmo com toda pressão, em cada centímetro de cabelo natural, ela sentia que valia a pena esperar. Para dar suporte, a publicitária criou de forma simultânea à sua tese, uma fan page e instagram com o nome Ninho de Cacho. Nesse espaço, conta sua história na transição, compartilha dicas para crespas, cacheadas e a quem mais desejar se encorajar no processo. Para ela, sua maior inspiração foi Rayza Nicácio, uma das pioneiras do Brasil a falar de empoderamento do cabelo cacheado, influenciadora que ela também entrevistou em seu trabalho científico.

Arquivo pessoal

Tran�as e cachos - trancista Ana Karoline faz tran�as e abusa das cores em seu cabelo

Ana Karoline começou a assistir tutoriais no youtube, aprendeu a se trançar sozinha e a tirar disso uma renda extra

Hoje, Leilaine exibe cabelos volumosos e cheios de cachos. “Esse movimento na internet tem grande crédito nisso, aliado a movimentos como feminismo, coletivos negros, feminismo negro. Também atribuo à apropriação que as mídias, a propaganda e a moda têm feito desse movimento, fazendo com que as mulheres com essas diferentes texturas se identifiquem e se sintam mais a vontade para assumir”, acredita.

Não muito diferente do começo de Leilaine, a estudante Ana Karolina do Nascimento, 21 anos, também relata que teve que enfrentar preconceito e estigmas sociais. A transição de Ana se iniciou no final de 2015 e terminou no começo de 2016. “Foi quando eu cansei de fazer química no meu cabelo e passar horas e horas sentada. Por muitas vezes, saí com várias feridas no couro cabeludo por conta dos processos químicos. E, também por, depois de muito tempo alisando o cabelo, sofrer diversas vezes com cortes químicos. Eu queria muito saber como era a textura do meu cabelo natural”, explica.

Ana conta que com 4 meses de transição resolveu cortar as pontas lisas do cabelo, também conhecidas como grande corte ou big chop. ”Logo vieram os comentários e a vontade de desistir, confesso que eu quase desisti no começo, mas hoje me sinto muito realizada. As tranças vieram logo após, quando fui pesquisar métodos de fazer o cabelo crescer mais rápido e vi que elas eram uma ótima alternativa”, relata.

Tranças e penteados

Na época em que Ana Karolina descobriu a transição capilar, estava desempregada e percebeu que os valores para fazer tranças eram altos. Começou a assistir tutoriais no youtube e aprendeu a se trançar sozinha. Com a rotina adquiriu habilidade. Logo, pessoas já lhe perguntavam quem fazia suas tranças. “Todas as minhas amigas ficavam chocadas e com vontade de fazer as tranças também. Então surgiu a idéia de fazer disso uma renda, além de também contribuir para a auto-estima de mulheres e homens que estavam passando pela transição”, ressalta.

Arquivo pessoal

Tran�as e cachos - Encontro de cacheadas mostra para mulheres e homens com cabelo afro que eles n�o est�o sozinhos

Desde 2016, um encontro de cacheadas e cacheados, que já está na 5ª edição, movimenta a temática no Estado

Segundo a trancista, o procedimento é indicado para o crescimento do cabelo, pois auxilia até na hidratação dos fios cacheados e crespos. “Os fios ficam protegidos. O processo, que é um pouco demorado, chega a durar de cinco a sete horas. Depende de vários fatores, desde como é a textura do cabelo à habilidade para trançar”, explica.

Ana ainda comenta que a procura por tranças e dreads estão a cada dia mais freqüentes não só em Cuiabá, mas no país inteiro. “Pessoas estão cansadas de processos químicos por questões de imposição estética ou até para se encaixarem em um padrão. Estamos saindo da ditadura dos cabelos extremamente lisos”, diz.

As inspirações de Karolina foram diversas, inclusive amigas próximas. Por isso, ela também acredita que nasceu de novo com a mudança. “Você aprende a amar aquilo que você é, a amar seu cabelo. Trata-se de um processo identitário. Não vou falar que é fácil. Nossa sociedade ainda não está evoluída o suficiente. Cheguei a ser alvo de racismo e de apelidos, o que é muito chato. Eu só quero dizer a todas as pessoas que estão na transição para não desistir. Vale muito a liberdade de ter o seu cabelo natural”, incentiva.

Outra adepta das tranças é Rafaela Alves, 23 anos, que acredita que o processo de transição foi um mundo cheio de novidades e conhecimento sobre ela mesma e suas descendências. A jovem também compartilha suas experiências capilares e o fato de “ser negra” na sociedade através do blog e instagram Arquivos de Rafaela.

Ela conta à reportagem que alisou o cabelo desde a infância, com 10 anos de idade, e só parou aos 20. “Passei pela transição por dois meses. Quando me olhava no espelho, eu não sentia que aquilo era o meu eu de verdade. Decidi assumir o cabelo como ele era e, hoje em dia, vejo que foi a melhor decisão que eu já tomei na vida”, confessa.

Para ela, que gosta de mudar, tranças sempre foram uma ótima opção. “Eu estava procurando por alternativas e vi que as tranças se encaixavam perfeitamente comigo. Não só pela estética que elas oferecem, mas também pela história e seu significado”, revela.

Arquivo pessoal

Tran�as e cachos - Rafaela Alves assume cabelo crespo e gosta muito de ver as pessoas felizes se assumindo

Rafaela Alves mostra experiências capilares e o fato de “ser negra” através do blog e instagram Arquivos de Rafaela

Rafaela percebe que, no período de três anos, o movimento das pessoas que assumem seus cabelos naturais está crescendo. “O pessoal tem feito bastante grupo de estudos e as mulheres tem se apoiado e se aceitado cada vez mais. Isso é incrível, eu gosto muito de ver as mulheres se assumindo, porque tem todo um processo até você saber e entender quem é você e sendo feliz com isso”, enfatiza.

Encontro de Cacheadas

Desde 2016, um encontro de cacheadas e cacheados tem movimentado a temática. Mais do que isso, tem reunido pessoas que acreditam que o retorno para o cabelo natural é uma decisão que precisa de apoio. O evento foi uma idéia de um grupo de amigos, entre eles, Hanna Rafaely, Kenny Roger, Annieli Suane e Josimar Lima. Juntos, usaram a internet para divulgação de todas as edições do evento e lançaram uma página no facebook chamada Família Black para não perderem o contato com o público do evento, além de estabalecer uma rotina de publicações e novidades.

Para a cuiabana Hanna Rafaely, 20 anos, que apesar de nunca ter passado pelo processo de transição acompanhou vários casos, o encontro tem como objetivo ajudar cacheados e crespos a se aceitarem como são, além de trocar idéias de produtos ideais para o tipo de cabelo e acessórios.

Só na primeira edição cerca de 120 pessoas compareceram. Em 2016, o grupo ainda não possuía som, não promovia desfiles, mas já houve muita conversa. “Fomos aprimorando outros eventos. Atualmente, temos grupos de dança, desfiles, sorteios, trocas de experiências e expositores”, pontua.

O encontro está em sua quinta edição e, para os organizadores, mostra para mulheres e homens com “cabelos afros” que eles não estão sozinhos. “É uma luta contra um padrão de beleza, racismo, e outros tipos de preconceitos sofridos”, finaliza.

Galeria de Fotos

Credito: Arquivo pessoal
Rafaela Alves, que criou blog e instagram Arquivos de Rafaela, em encontro de cacheadas
fonte: rdnews


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