Tocilizumabe: Medicamento polêmico e caro surge como novo tratamento contra covid

Os médicos têm prescrito o medicamento reumatológico que atua no sistema imunológico e combate inflamações para pacientes de covid em casos graves.RepórterMT/Reprodução

O medicamento Tocilizumabe, potente anti-inflamatório de aplicação intravenosa, porém, de alto custo, tem sido usado em hospitais de várias partes do mundo no tratamento de pacientes com covid, principalmente aqueles com quadro clínico considerado grave.

O Tocilizumabe é uma droga indicada para o tratamento de artrite reumatoide.

Em Mato Grosso o remédio, que tem o valor de uma caixa na casa dos R$ 6 mil, virou manchete após o apresentador de TV Andersen Navarro, da TV Cidade Verde, ter um agravamento sério em seu estado de saúde, em decorrência da covid, e a equipe médica do Complexo Hospitalar de Cuiabá solicitar o medicamento, que, inclusive, foi difícil de encontrar.

A Universidade de Oxford, no Reino Unido, pesquisa o medicamento desde março de 2020.

Um estudo com mais de 4.000 voluntários diagnosticados com covid, quando metade tive tratamento padrão e a outra parte teve o Tocilizumabe prescrito, a conclusão foi de que a droga respondeu significativamente na redução de mortes, nos casos mais graves e evitou ou diminuiu o risco de intubação para outros internados. A tese é do ensaio Recovery.

No Brasil, o Hospital Igesp, em São Paulo, testou o medicamento em 14 pacientes internados em estado grave na unidade, com comorbidades diversas, sendo 11 pacientes já intubados e 3 em fase de pré-intubação, todos sem perspectivas de melhora.

Segundo o Hospital, a resposta do estudo entre os intubados foi de recuperação de 10 pacientes e a morte de 1. O segundo grupo teve uma evolução de melhora considerável e não foi necessária a intubação.

Conforme pesquisado pelo reportermt, as respostas positivas do medicamento no combate à covid seriam devido ao fato de a droga impedir o ‘efeito cascata de citocina’ que a doença produz no organismo como resposta do sistema imunológico, porém, os pacientes tratados com o medicamento teriam contraído mais infecções secundárias durante o tratamento do que os pacientes que não usaram a droga.

A citocina é uma molécula responsável pela comunicação entre as células com a responsabilidade de regular o sistema imunológico por meio da aceleração do processo inflamatório para lidar com infecções.

No entanto, o excesso de produção de citocinas desregula o sistema imunológico e sintomas como febre alta, inchaço e vermelhidão, náusea e fadiga extrema começam a aparecer, podendo evoluir e ser fatal em alguns casos.

Ou seja, o Tocilizumabe atua impedindo a produção excessiva das citocinas tentando controlar o sistema imunológico e combatendo inflamações, que acometem muito os pacientes infectados pelo novo coronavírus.

O infectologista Tiago Rodrigues explicou que o Tocilizumabe não é um antiviral e sim um imunobiológico, ou seja, trabalha no organismo diminuindo a imunidade e, consequentemente, as inflamações causadas por diversas doenças. Por isso é uma droga muito utilizada no tratamento de doenças reumatológicas.

Embora o estudo da Recovery tenha mostrado indícios de benefícios no tratamento de pacientes com covid, que geralmente são vítimas de diversas inflamações, e aí o motivo do uso do Tocilizumabe, o médico deixa claro que não há estudos concretos da eficácia e, principalmente, do momento em que se deveria administrar essa medicação.

Riscos

Tiago ainda explicou sobre os riscos do medicamento, que embora, possivelmente, possa trazer benefícios contribuindo para a desinflamação dos pacientes com covid, o Tocilizumabe derruba o sistema imunológico deixando o paciente desprotegido contra infecções.

“A evidência de que o Tocilizumabe traga melhoras ao paciente ainda é muito fraca e muito controverso. Às custas da redução das inflamações, há a redução da imunidade e isso é perigoso. O paciente geralmente é crítico, está na UTI e se pegar uma infecção bacteriana qual a defesa que ele vai ter? Tem que ser muito bem avaliado os benefícios para a utilização deste medicamento”, explicou o infectologista.

O doutor ainda relatou que ainda não há comprovações do real funcionamento e atuação do Tocilizumabe no organismo dos pacientes com covid, nem em qual fase da doença mais indicada para usar e, principalmente, se há mais benefícios do que malefícios.

“Ele [Tocilizumabe] é mais uma tentativa, eu não gosto de usar medicamentos sem evidências comprovadas. Como pesquisador eu acredito que testes são feitos durantes estudos clínicos e não em pacientes. Porém, eu entendo perfeitamente médicos e familiares que aceitam o medicamento, as vezes são pacientes em estado crítico, sem ter muito o que fazer em um momento desesperador. Cada caso é um caso”,comentou.

O médico confessou que neste momento, com evidências de benefícios tão frágeis, não aceitaria a administração do Tocilizumabe em um parente, no entanto, ressaltou novamente que cada caso é um caso e uma decisão pessoal da família, desde que seja informada de todos os riscos.

“A família tem que participar e conhecer os riscos que o paciente vai correr com a imunidade baixa. É uma decisão que deve ser tomada em conjunto entre o médico e a família”,concluiu.

Fonte: Reportermt


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