Haiti, um país mergulhado na tragédia

  1. Terremoto de 14 de agosto se soma ao drama da nação mais pobre das Américas, que em pouco tempo sofreu desastres naturais, um caos político interminável, crise econômico-sanitária e até um magnicídio, e que resiste à espera de que sua sorte mude
Hospitais saturados após o terremoto.
Hospitais saturados após o terremoto.MONICA GONZALEZ
Los Cayos / Port Salut (Haiti)

Quem perdeu tudo no terremoto da semana passada no sudoeste do Haiti perdeu até as lágrimas. No hospital de Port Salut, na zona mais afetada pelo sismo, um ferido deitado num papelão no chão grita de dor enquanto Chovel Arcy, um cirurgião ortopédico voluntário que chegou do outro lado do país, endireita sua perna fraturada. “Aaaaiiiiiiii, aiaiaiaiaiaiaiiiii, mezanmi, mezanmi” (“ai, querido!”), grita o paciente na sala lotada e com cheiro de ferrugem, enquanto sua mulher põe uma toalha molhada sobre o seu rosto. Mas não chora. A 30 quilômetros de lá, no hospital de Los Cayos, uma mulher de 25 anos com a perna quebrada, Ylet Gertha, conta que perdeu no terremoto uma filha de 10 anos, seus pais e uma irmã. Mas não chora. “Deus sabe o que faz”, diz. E pergunta: “Não tem nada para comer?”.

Pessoal do Hospital Port-Salut após o terremoto.
Pessoal do Hospital Port-Salut após o terremoto.MONICA GONZALEZ

Por todos os lados há indignação, há gritos desesperados e apelos por uma ajuda que não chega. E há, sobretudo, invocações a Deus. Mas não há lágrimas. “Sabe quando você aperta demais um botão, e às vezes quando aperta não acontece nada?”, compara Dieunord Saint Louis, diretor-clínico de um hospital no sudeste do Haiti que veio a Port Salut com uma equipe de médicos e enfermeiros para ajudar os afetados. “Não é porque não doa, talvez seja porque há tanta dor que você já não sabe mais como reagir.”

O terremoto de sábado passado, 14 de agosto, que golpeou a península sudoeste do país mais pobre das Américas, aumentou ainda mais a pressão sobre um território que, em pouco mais de uma década, foi assolado por terremotos como o de 2010, que deixou mais de 200.000 mortos e semeou a destruição na capital, Porto Príncipe; por furacões como o Matthew, de 2016, que tirou a vida de aproximadamente mil pessoas nesta mesma região; e por uma série interminável de crise econômicas, sanitárias e políticas que tiveram seu mais recente episódio no mês passado, com o magnicídio do presidente Jovenel Moïse, torturado e assassinado em seu próprio quarto por um grupo de mercenários colombianos.

O terremoto deste mês, que deixou quase 2.200 mortos, mais de 12.000 feridos, pelo menos 300 desaparecidos e mais de meio milhão de pessoas com necessidades humanitárias urgentes nos departamentos Sul, Nippes e Grand’Anse, volta a evidenciar todos os males que afligem um país que parece condenado a um ciclo interminável de tragédias. “É como se a natureza ou os acontecimentos não nos deixassem descansar”, diz Saint Louis. “Mas em meio a tudo isto muitos de nós temos fé. Parece que é da nossa cultura. Mesmo que a noite seja muito escura, esperamos que o dia vá chegar.”

Um batismo sepultado por um terremoto

Este 14 de agosto deveria ter sido um dia de festa para Samson Stephene, um menino de 4 anos com a cabeça raspada e olhos negros brilhantes, dos quais nos últimos dias ― aí sim ― saíram lágrimas. Às 8h29, quando a terra tremeu, o pequeno estava sendo batizado na igreja da Imaculada Conceição de Les Anglais, no sudoeste do Haiti. O templo construído em 1902 não suportou o terremoto. A fachada desabou sobre os presentes, e cerca de 20 deles morreram, incluindo duas primas do menino, de 2 e 16 anos, e outros três familiares.

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Samson sobreviveu, mas os escombros lhe provocaram uma ferida aberta em um pé que lhe causou uma necrose, além de uma fratura no braço e arranhões na cara. Nesta quinta-feira, os médicos voluntários da equipe de Saint Louis e Arcy tiveram que amputar um dedo do pé afetado. Agora, na mesma sala lotada onde há algumas horas o cirurgião ortopédico endireitava a perna fraturada de um homem com suas mãos, o menino acorda da anestesia deitado numa cama. Sua mãe, Lowfy Pierre, o abana com uma toalha, acaricia seu rosto e afasta as moscas que pousam sobre seu corpo.

O anestesista Reginald Maluvision e o ortopedista Chovel Alcy.
O anestesista Reginald Maluvision e o ortopedista Chovel Alcy.MONICA GONZALEZ

Está concentrada no seu trabalho. Não quer que o menino sofra, mas por sua cabeça passam outras preocupações. A família, que vive a várias horas de distância do hospital, também perdeu a casa, e levar o menino embora para que ela mesma se encarregue dos curativos recomendados pelos médicos significa perder a renda do seu trabalho como lavadeira e passadeira. “Precisamos de comida e um lugar para morar”, diz a mulher, que tem outros dois filhos.

“Embora seja anestesista, a gente tem que falar com os pacientes para ver como pode ajudá-los, como pode melhorar as coisas para eles, e às vezes tem que lhes dar esperança”, diz outro dos médicos voluntários, Reginald Malvoisin. O homem de 41 anos é de Porto Príncipe: já conhece o trauma dos terremotos. Há 11 anos viveu o sismo que destroçou a capital. “Sabemos que as pessoas vão precisar de ajuda médica e psicológica. Por isso viemos.”

Assim como Saint Louis e Arcy, Malvoisin fala espanhol com sotaque cubano. Os três homens estudaram há alguns anos em Cuba como parte de um programa do Governo desse país que lhes oferecia formação médica gratuita, com a condição de retornar ao Haiti a trabalhar nas comunidades mais remotas. Agora todos pertencem a um programa implementado pela ONG norte-americana Higgins Brothers Surgicenter for Hope, que abriu um hospital na cidade de Fond Parisien , na fronteira com República Dominicana, para oferecer cirurgias mais baratas a quem precisa. Uma oportunidade para que o os profissionais de saúde haitianos não emigrem.

Imediatamente após saber do terremoto no Haiti, o fundador do projeto, Ted Higgins, pegou o telefone em Kansas City e ligou para o hospital de Fond Parisien para coordenar o envio de uma missão aos lugares afetados, com a equipe que melhor pudesse atender as lesões típicas de um sismo: cirurgiões, ortopedistas, um anestesista e uma enfermeira especializada em recuperação, além do próprio diretor clínico, que se encarregou da logística. A viagem começou enquanto a depressão tropical Grace passava pelo sul do Haiti e enlameava os acampamentos onde dormiam desabrigados pelo terremoto. “Durante a tempestade eles recolheram os equipamentos e suprimentos e os trouxeram para Porto Príncipe. Vieram me apanhar no aeroporto e dirigiram pelas montanhas para evitar as quadrilhas de criminosos”, conta Higgins, que é cirurgião cardiovascular.

Reginald Maluvision, de 41 anos, anestesiologista, sustenta Samson Stephen, de 4 anos, após a intervenção cirúrgica.
Reginald Maluvision, de 41 anos, anestesiologista, sustenta Samson Stephen, de 4 anos, após a intervenção cirúrgica.MONICA GONZALEZ

Como eles, muitos médicos, socorristas e voluntários se depararam com um problema na hora de levar ajuda às zonas mais afetadas pelo terremoto. Para chegar ao sudoeste da capital, o caminho mais curto é passando por Martissant, um bairro da periferia de Porto Príncipe que nos últimos meses foi tomado por grupos armados que cometem ataques e sequestros e tornam cada vez mais difícil o transporte de pessoas e mercadorias. A tragédia no sudoeste também trouxe à tona a crise de segurança e levou a ONU a pedir o estabelecimento de um corredor humanitário para socorrer as vítimas.

As quadrilhas que operam nessa zona anunciaram uma trégua pelo terremoto. Mas isso não impediu que dois médicos da capital fossem sequestrados esta semana, incluindo um dos poucos cirurgiões ortopédicos do país, Workens Alexandre. Isso fez o hospital onde ele trabalha em Porto Príncipe, e que tinha recebido meia centena de vítimas do tremor, fechar suas instalações durante dois dias como forma de protesto. Na noite de sexta-feira, foi anunciada a libertação do cirurgião.

Apesar de vários países terem enviado equipamentos e ajuda humanitária nos últimos dias, nas comunidades afetadas a sensação é que estão abandonados, especialmente nas zonas rurais e nas áreas afastadas das duas maiores cidades afetadas, Jérémie e Los Cayos. “O que vamos fazer? Aqui não temos Governo. Nós nos ajudamos entre nós. É o que temos como qualidade no Haiti, mesmo quando não temos nada”, dizia na quarta-feira Charly Gonouse, um engenheiro aposentado de 72 anos que perdeu sua casa na comuna de Cavallion. O terremoto o deixou sem lar, sem comida e sem água potável, uma situação que os especialistas temem que possa desembocar em uma crise de saúde pública ou uma epidemia como a de cólera que se desatou no país depois do terremoto de 2010.

Pacientes do Hospital Port-Salut são tratados após o terremoto de magnitude 7,2 que atingiu o sul do Haiti.
Pacientes do Hospital Port-Salut são tratados após o terremoto de magnitude 7,2 que atingiu o sul do Haiti.MONICA GONZALEZ

Haitianos para os haitianos

Em 2016, antes de deixar seu cargo, o então secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, pediu perdão ao Haiti pela propagação do cólera depois do sismo de 2010. Era a primeira vez que a ONU reconhecia sua responsabilidade de maneira tão crua e aberta, e tinha demorado cinco anos: já em 2011, uma investigação do Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos concluíra que os soldados das forças de paz da ONU, especialmente nepaleses, haviam causado o ressurgimento da doença. Além de causar uma epidemia, a chegada maciça de ajuda internacional nos últimos 11 anos derivou em uma série de escândalos de abuso sexual e desperdício de verbas por parte de algumas missões estrangeiras, o que semeou desconfiança entre os haitianos.

“No Sul se sabe que a capital está longe e que a ajuda internacional está a serviço de si mesma. É uma lição aprendida através dos anos”, escreveu o redator-chefe do jornal haitiano Le Nouvelliste, Frantz Duval, num artigo publicado na segunda-feira passada, dois dias depois do último sismo. “Para se levantarem, as zonas destruídas devem abrir bem os olhos para que não sejam roubadas duas vezes”, acrescentava.

Uma criança posa para a câmera no campo de futebol de Los Cayos, convertido em refúgio dos que perderam suas casas no terremoto.
Uma criança posa para a câmera no campo de futebol de Los Cayos, convertido em refúgio dos que perderam suas casas no terremoto.MONICA GONZALEZ

Chovel Arcy, o cirurgião ortopédico que em dois dias operou seis feridos do terremoto, não se ilude quanto ao volume de problemas do país. “Todo mundo sabe”, diz, “mas o mais importante é que, quando há necessidades, a gente esteja lá. Mesmo que haja problemas, deixamos para ajudar o povo do Sul porque eles necessitam do nosso apoio”, diz.

Para Higgins, “ver haitianos ajudando outros haitianos é maravilhoso. Porque eles não têm muitas coisas que dar, não têm muitos materiais ou equipamentos, mas dão o que podem”. Que depois de tudo o que passaram os haitianos não se deem por vencidos é algo que o surpreende. E não esconde seu orgulho por ter impulsionado um projeto que funciona onde tudo parece condenado à tragédia. “É quase um paradoxo: temos algo que funciona no Haiti”, diz.

Uma criança e uma mulher recolhem as bolsas com água trazidas por organizações humanitárias.
Uma criança e uma mulher recolhem as bolsas com água trazidas por organizações humanitárias. MONICA GONZALEZ

Dieunord Saint Louis acredita que projetos como este podem ensinar que com a união é possível obter coisas boas para o futuro do país. “Temos recursos, mas é preciso juntá-los, nos unir melhor e aproveitar o potencial que temos”, afirma.

Nos hospitais saturados que recebem os feridos nos últimos dias, como o de Port Salut, todas essas palavras se tornam alicerces de algo, munição contra o cinismo. Os haitianos que já ficaram sem lágrimas, que não têm absolutamente mais nada a perder, ainda têm a outros haitianos: uma procissão que acompanha uma grávida em seu passeio entre outros pacientes para ajudá-la a entrar em trabalho de parto; familiares que abanam seus doentes em meio a salas abarrotadas e sufocantes; um voluntário da Cruz Vermelha de 19 anos, Stephen, que perdeu sua casa e vai até o hospital a cada manhã para carregar pacientes numa maca.

Nesta quarta-feira, no hospital geral de Los Cayos, duas enfermeiras jovens envolviam em um lençol o corpo de uma idosa que acabava de morrer de diabetes, no meio de uma sala onde cuidavam de vários recém-nascidos: tinham chegado ao mundo poucas horas depois do terremoto. Cada choro que se ouvia era um bom sinal.

Fonte: El País Brasil


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